terça-feira, 25 de junho de 2013

Sonhos que eu queria viver.

O vento sopra
O tempo esfria
De noite acordo pra me cobrir

Uso lençol
Por cima edredom
Em casulo me enrolo
E aninho

Tento dormir 

Com pé ainda gelado
Dedos gelados
Rosto amassado
Conforto não tem

Tanto aperto os olhos
Quase olho pra dentro
Volto ao sonho
Espero o embalar do sono

Não vem

Não olho o relógio pra não vê-lo rodar
Num constante parar
E então seguir

Acostumo com a pouca claridade
Vejo formas disformes de passagem
Em cada minuto, incabível eternidade
Enlouqueço por só meus pensamentos ouvir

Faço-me companhia 
Fantasiando acordada
Histórias pr'eu dormir
Coisas que nem vivi

O dia raia
O sol já brilha
De manhã me descubro a mim.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Eu não sei você, mas eu adoraria saber o gosto de umas palavras.


  Não me recordo da primeira vez que escutei falar sobre essa coisa de sinestesia. Tenho pra mim que foi numa das primeiras vezes em que joguei The Sims, quando resolvi reparar nas frases que apareciam na tela justificando a demora pra carregar o jogo. Lembro bem de uma que dizia que estavam "eliminando mágicos de araque" e, pelo tempo que isso demorava, eu imaginava que eram mágicos de araque muito bons, mas... porém... contudo... todavia... devo embaraçosamente dizer que a culpa era toda minha por tentar carregar esse jogo com todas suas oito expansões em um Windows 95.

  Pois bem. Sinestesia. Essa palavra me incomodou durante muito, muito tempo. Nunca gostei de coisas que eu não conseguia entender, então sempre que eu via essa palavra eu pensava em procurar seu significado, mas com todo aquele jogo de sedução que me mantinha horas a fio em frente ao computador, posso dizer que foi uma batalha épica com a minha memória até que eu conseguisse lembrar que, caramba!, já era hora de eu descobrir o que aquilo significava.

  O que eu achei dizia respeito a uma das figuras de linguagem que misturava percepções de sentidos diferentes, como quando Casimiro de Abreu disse que as falas sentidas que os olhos falavam, ele não queria, não podia e não devia contar. Ainda me impressiono com o poder que essa figura tem de dar vida aos textos. Eu gosto de pensar que é porque eu posso sentir a "frase sinesteta".

  Foi bastante tempo depois que eu descobri que sinestesia era também uma condição neurológica que permitia que as pessoas sentissem de verdade um cheiro adocicado ou que escutassem uma música azul. É uma condição tão ímpar que é difícil até assimilar a ideia. Acho que a palavra que eu procuro é transcendental.

  Imagine viver em um mundo em que você pudesse ver as cores das notas musicais, sentir o gosto dos aromas, a temperatura dos sabores ou até os sons dos cheiros. Imagine todas as suas vivencias cotidianas acrescidas de mais informação. Imagine escutar um som quando o semáforo mudar de vermelho pra verde, sentir o gosto do cheirinho de frango assado, a emoção que vem junto com o chocolate, descobrir a temperatura da pimenta ou observar a explosão de cores de uma música de bossa. Eu acho que seria uma aventura fazer qualquer coisa nova. Uma viagem. Um beijo. Ligar a TV. Amor.

  Eu acho que não perderíamos uma só lembrança.

  Eu acho que lembraria bem da primeira vez que escutei falar sobre essa coisa de sinestesia se eu tivesse algum quê de sinesteta. Tenho certeza que ela seria, ao menos, alguma coisa além de uma palavra. Não gosto de lembrar fatos com clareza e não das minhas percepções sensoriais. Não gosto de coisas que não consigo entender e não entendo nada de sensações e sentidos. Mas de uma coisa eu sei:

  Eu me entenderia melhor se eu conseguisse sentir o exato gosto dos "sim" e dos "não".

terça-feira, 26 de março de 2013

Quando o ócio não é produtivo, é esclarecedor.

  Já é noite, mas o dia foi longo. O sol, que sempre nasce na minha janela e ilumina todo meu quarto, acordou-me antes do despertar do relógio. Estava claro demais para voltar a dormir e cedo demais pra fazer qualquer outra coisa. Continuei deitada esperando que meu corpo e mente reagissem a luz do dia, na esperança de que algum deles me dissesse "ei, preguiçosa, hora de levantar!", como fazia minha mãe quando me acordava nos dias de escola. Nenhum dos dois me deixou saber se já estava na hora ou não e, sendo bastante sincera, perdi a noção de tempo porque minha cabeça estava vazia. Cá entre nós, às vezes uso a quantidade de coisas idiotas que passam pela minha cabeça como marcador de tempo.


  Num estado de completa inércia mental e corporal, resolvi olhar a hora que marcava o relógio. Eram sete horas e dezoito minutos. Assim, escritos assim mesmo pra vocês perceberem o quanto esse tempo passou arrastado. Depois de tanto me enroscar e aconchegar nos lençóis esperando o tempo passar, ainda eram sete horas e dezoito minutos.

  Levantei da cama levando as cobertas comigo pra usá-las como mantas e fui tomar café da manhã. Pra combinar com o ócio do momento, comi pão com pouca-manteiga e tomei uma xícara de café-com-leite-com-uma-colher-de-açúcar bem quentinho. Sempre fico sozinha em casa pela manhã e prefiro ficar no meu quarto porque quando escuto algum barulho, é mais fácil tomar conta de uma porta do que de três: da sala, da cozinha e da área de serviço. É sempre uma "aventura" ficar sozinha em casa - entre muitas aspas, claro - e tem algo de muito libertador nisso também. Eu gosto.

  Dei um tempo pro café da manhã assentar no estômago e fui fazer ioga, uma "reverência ao sol" pra retribuir o bom dia que ele veio me desejar. Foi horrível! Meu corpo doía inteiro porque na última festa que eu fui até tombo levei, mas no final das contas enfrentar isso valeu a pena, já que agora consigo sentar numa cadeira sem dizer "aaaaai!". Fui tomar banho porque não gosto de sair de casa com o cabelo molhado e gosto que ele seque ao natural. O relógio despertou logo que entrei no banho, mas ignorei e deixei que tocasse. Demorei quase duas horas no chuveiro. Ainda está no meu celular o aviso de alarme perdido. A partir daí o tempo correu bem rápido.

  Me vesti ao som de Ramones, The Who, Joan Jett, Red Hot e Arctic colocando cada peça de roupa no ritmo das músicas. Meu pé prendeu no short e fiquei pulando num pé só tentando manter o equilíbrio. Fiz meu almoço, comi, fiz limonada com gengibre, bebi, escovei os dentes e, quando percebi, já estava na hora de sair de casa.


  Meu curso começava às 14h, mas tinha que sair antes de casa pra imprimir meu currículo, tirar xerox da identidade, passar no cartório e ir no colégio onde eu fiz o fundamental pra pedir meu histórico escolar. Esqueci dessa última parte e peguei-me na rua cedo demais pra chegar no curso e "sem nada pra fazer". Lembrei de uma papelaria onde vende umas coisas muito legais e fui pra lá esperar o tempo passar. A vendedora deve ter achado muito estranho eu ficar lá tanto tempo olhando especificamente pra ... nada e, por isso, veio puxar assunto comigo. Eu estava com uma apostila e o currículo nas mãos.


  "Procurando emprego de que?" ela perguntou. Eu ri da forma como isso soou louco. Eu, 17 anos, míseros 1,59m de altura que tornam impossível ter uma conversa com alguém sem que essa pessoa olhe pra baixo, procurando emprego. "É pra estágio" eu disse rindo. Engatamos em uma conversa sobre minha vida que me fazia rir da naturalidade com que ela dava opinião sobre o que eu devia fazer sem ao menos saber meu nome. 13:52h: Hora de ir pro pré-vestibular.

  De 14h às 17:30h eu ri no curso com meu professor de uma-matéria-que-eu-já-dei contando de um trote que ele deu nos alunos vestindo outro professor de padre e fazendo todo mundo rezar por uma hora e meia. Mas entre uma risada e um exercício, a moça da papelaria e a nossa conversa me voltava a cabeça. Eu estava bastante incomodada com alguma coisa e não conseguia descobrir o que era até que um amigo me disparou: "Quando você chegar em casa já vai ter uma resposta do estágio!"


  Aí eu entendi. Agora eu entendi tudo.

  Demorar pra levantar. Ócio. Tomar café da manhã com calma. Festas. Banhos demorados. Almoçar em casa. Fazer hora olhando vitrines. "Panfletar" currículo. 


  Nem me formei e já estou desempregada.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Como nos conhecemos.

  Tarde de inverno no RJ. Saio no início da noite para dar uma volta nas pedras do Arpoador.


  Curto, solitariamente, minhas lembranças, tristeza e solidão. De repente, percebo um rapaz que se posiciona como alguém que pretende se atirar ao mar. Corro ao seu encontro e nos chocamos de frente quando o jovem abruptamente gira seu corpo em minha direção, pois estava munido de toda minha força e velocidade para salvar-lhe a vida tirando-o dali. Reparo enquanto caímos colados que apesar da profunda surpresa que estava estampada em seu rosto dada à minha atitude, nada nele indicava qualquer sinal de perturbação mental ou emocional.

Nossa queda nas pedras fez barulho que me lembrou do rasgar de um papel e, molhadas como estavam da chuva daquela tarde, escorregamos para as pedras mais baixas, mais próximas ao mar.

Desde nosso choque até o escorregão, tudo aconteceu em frações de segundos. Rápido demais para que tentássemos encontrar qualquer forma de nos proteger das pancadas e arranhões, mas ao mesmo tempo foram instantes muito arrastados. Parou de serenar, o vento interrompeu a cantoria e até a cidade ao fundo se apagou. Tentei imaginar que horas eram. Duas horas da manhã no relógio quebrado no meu pulso. O tempo parou ali.

  Quando me recuperei do susto e consegui juntar o mínimo de minha dignidade espalhada entre as roupas rasgadas e sujas e o corpo machucado, levantei-me. Ainda apoiado nos braços como uma criança que engatinha, procurei pelo rapaz para oferecer-lhe a mão, mas pelo chão nada encontrei. O que vi, na verdade, foi um par de calcanhares e pernas bem firmes e fincadas na borda da pedra. Pus-me de pé e fui até ele. Novamente, como que para repetir a aventura, o rapaz virou-se repentinamente para mim. “Você veio pra me ajudar a chegar às estrelas?” perguntou ele.

  Fiquei atônito e temeroso. Não consegui achar uma resposta para a pergunta, tampouco de entender seu significado. A pergunta ressoava em minha cabeça: “Você veio pra me ajudar a chegar às estrelas?”. Só conseguia pensar que, na tentativa mal executada de ser um herói salvando aquele rapaz, eu tinha ocasionado a ele algum tipo de concussão, dano cerebral ou coisa assim. Tenho certeza que ele reparou em meu conflito interno, pois o vi franzir o cenho e inclinar a cabeça num ato de deliberada curiosidade. Na ausência de qualquer reação minha, “você vai me ajudar ou não?” ele insistiu.

  Com as incessantes investidas do menino que tentava me arrancar uma resposta, percebi que até o momento eu não havia dito nem sequer uma palavra e estava curioso e preocupado sobre seu estado de saúde bem como sobre o motivo que o levara até as pedras àquela hora da noite. Não era um menino crescido. Não devia andar assim, sozinho. Achei que seria rude começar pelas perguntas movidas a mesquinhez da curiosidade pura, mas atropelei-me nas perguntas:

  - Como você está rapaz? Onde dói? Você não deveria andar sozinho, deveria? – falei enrolando a língua e emendando palavras.

  - Não estou sozinho. Você veio me ajudar. – respondeu somente.

Como pude esquecer? Ele queria ajuda com as estrelas. Eu devia responder aquilo antes de perguntar.

- Talvez eu possa te ajudar depois de irmos ao médico. O que acha?

- Precisamos recolher as estrelas agora! – respondeu com uma fúria repentina.

  Eu estava ficando profundamente assustado com aquele menino, mas não podia deixa-lo ali sozinho, podia? Não. Não podia. E se ainda fosse culpa minha seu estado de confusão, eu devia ajuda-lo a ter conforto, certo? Mas ele... Ele quem?

  - Tudo bem, vou te ajudar a chegar às estrelas. Como se chama?

  - Precisamos de uma rede, moço. Uma rede maior. Sempre que eu lanço a minha ela volta vazia. Mais vazia que você de alegria. Não alcança as grandes lá do fundo. As pequeninas passam pelos furos. E eu preciso de muitas, moço. Eu preciso de muitas e ainda não peguei nenhuma!

  Sua voz estava pedinte, suplicante, alterada. Definitivamente o menino não estava bem da cabeça, mas havia um tom de urgência e sinceridade que me impeliram a ajuda-lo. Perguntei a ele sobre sua rede e ele me apontou o vazio. Disfarcei o espanto e fiz como se pegasse algo do chão. Disse a ele que eu era mais forte e lançaria mais longe. Imediatamente a expressão do menino mudou. Como se um fio de esperança atravessasse sua mente. Como se... Como se ele ficasse mais jovem e a inocência lhe invadisse. Ele parecia realmente mais jovem. Não. Ele estava mais jovem. Como é possível? Mas não é possível. Não. Que besteira. Minha mente está me pregando peças novamente. Deve ser a insônia.

  Lancei a rede ao ar, esperei, puxei. Não sabia ao certo o que eu deveria tentar pegar e como não houve nenhum gesto que indicasse que o menino percebera, continuei a puxar. Puxei por um tempo como quando um pescador fisga um peixe ao longe e precisa trazê-lo pra perto. Podia notar a agitação do menino atrás de mim, esticando o corpo e pescoço para enxergar minha rede.

  Você conseguiu! Duas, três, quatro. Quatro estrelinhas pra mim! – O menino explodiu numa mistura de palavras e risadas. – Conseguiu sim! – e ria sem parar.

  A risada atingiu-me em cheio e ri também. O menino enxergava ali toda sua felicidade. Quanto a mim, tudo que eu via era um noite tão escura que se confundia céu e mar. Não fosse a forma disforme e quase melancólica com que a água refletia os pingos de luz saltados do céu, acreditaria que era tudo um só. Nada naquela noite parecia real para mim a não ser a felicidade daquele menino ao ver as estrelas. Isso era tão palpável que eu, vazio de alegrias e cheio de minhas tristezas, fui agraciado com o milagre do riso.

Mantive o foco no que eu estava fazendo, mirando no horizonte cada vez mais longe. O menino queria muitas estrelas e eu queria que isso acabasse. Suas perguntas e explosões tornavam-se mais frequentes. Sentia-me idiota tentando pegar uma coisa que eu nem via. Além do mais, o menino já tinha passado da época de fazer esse tipo de coisa. Será que ele mesmo acreditava no que me pedia? E se acreditava, por que queria pegar todas elas? O céu fica mais bonito quando enfeitado. Sem elas, é só um breu infinito e a lua sozinha. Muito cru.

Efeito do cansaço, sentia a rede cada vez mais pesada em meus braços. Sempre que a rede chegava à pedra, o menino exaltava-se novamente de forma cada vez mais animada e dizia-me que faltavam menos que antes. Nem sei quantas vezes ele agradeceu-me. Eu já não olhava pra mais pra trás. Só jogava o suposto conteúdo da rede para o lado e ele catava tudo quase que imediatamente. Não queria perder nenhuma, disse-me uma vez. Precisava de muitas e precisava bem rápido.

  Permiti-me um esticar de costas, pois elas doíam de tanto ficar na mesma posição. Ergui minha cabeça e fui invadido por uma confusão novamente. Não vi nada além do mar. A cidade ao fundo desapareceu na negritude da noite. Que horas da madrugada deveriam ser? Há quanto tempo estávamos ali? A essa altura, até o mar estava praticamente todo negro, com poucos pontos distantes de luz, reflexos das estrelas. Peguei-me pensando se eu estava mesmo pescando estrelas e decidi que, novamente, minha mente me pregava peças.

  Lancei a rede de novo no mar e puxei o que pareceu ser o peso do mundo. Para me distrair... Bem, não só para me distrair como também para saber o motivo pelo qual passei horas intermináveis puxando pesos inexistentes, perguntei ao menino:

- Para que você precisa de tantas estrelas?

- Não se preocupe, tio! – ele respondeu – Essa é a última rede que você precisa jogar.

  Quando a rede chegou à pedra em que estávamos, lancei o conteúdo para ele como fiz das outras vezes. Quantas vezes? Vinte, vinte e poucas vezes, talvez. Talvez mais. Perdi minhas contas e o interesse em contar. Aquilo nunca chegava ao fim porque, afinal de contas, eram estrelas. Ninguém consegue nem imaginar quantas são. Mas eu, segundo aquele menino, pesquei todas para ele naquela noite.

Quando consegui mover minha coluna maltratada pela posição e desgraçada pela idade, virei-me para encarar aquele rapaz. Eu realmente queria saber quais eram seus objetivos e pensava sinceramente em levá-lo ao médico por causa de nossa queda. Mas o que encontrei ao virar fez de mim, um homem pra quem só o que falta fazer é morrer, uma confusão pior que bate papo de adolescentes. O rapaz havia desaparecido. Ainda vasculhei nossa pedra em busca de algum sinal dele, mas nada encontrei. O que estava na minha frente era outra coisa. Uma coisa que parecia saída dos meus pesadelos. Uma coisa que sempre me aterrorizou durante toda minha vida. Uma criança, Deus, uma criança.

Mas não era uma criança comum. Tinha no olhar aquele ar sábio que as pessoas idosas geralmente têm quando dão conselhos e parecia cansado como quem trabalha incessantemente, dia e noite, sem folgar.

De pés unidos, bracinhos colados ao corpo, mãos nos bolsos e olhos enormes, uma criança me fitava. Minha incredulidade no que eu via foi percebida pelo menininho, que veio até mim, abraçou-me as pernas e disse-me “obrigado pelas estrelas, tio!”. Geralmente os adultos respondem as perguntas das crianças, coisa que sempre me irritou profundamente – “não podiam aprender sozinhos?” sempre me perguntava, mas naquela hora, Deus, eu tinha tantas perguntas... Insisti, como fazem as crianças, na última que tinha feito e não foi respondida. “Para que quer as estrelas, menino?” eu perguntei e de súbito percebi meu erro. As crianças aprendem sozinhas sim e por isso perguntam. Caso alguém as ensinasse, apenas balançariam a cabeça em concordância como fazemos depois de grandes.

  - Não quero pra mim – respondeu-me ele. – Quero devolvê-las todas! Todinhas!

- Então me fez recolher todas as estrelas para arremessa-las ao mar novamente? Que espécie de travessura do mal é essa? – perguntei esquecendo que, na verdade, nada recolhi. - Que menino travesso você! Para fazer isso com um homem de bem só pode ter vindo do inferno! Do in-fer-no! – Prolonguei as sílabas, pois já estava muito cansado e a cólera me dominava. Além de maluco, porque só podia ser o que eu era, eu era um maluco feito de bobo por algum anjo mau.

- Não seja bobo, tio! – e o menino ria aquele riso que me fez rir. – Eu quero devolvê-las aos donos pra que sejam felizes. O céu brilha tanto porque tá cheio de estrelas perdidas! Elas que antes moravam nos olhos das pessoas, escorregaram quando eles estavam molhados, que nem a gente na pedra, lembra, tio? E se perderam, as coitadinhas! Daí elas vão pra onde todos possam ver e brilham, brilham e brilham tentando achar suas casas, mas ninguém procura mais! Não sei quem teve essa ideia de que Felicidade a gente só encontra uma vez... Eu encontrei! Eu encontrei a de muita, muita gente! E eu vou devolver todas, todinhas! E as pessoas vão ficar felizes, tio! Eu prometo! Mas agora eu preciso ir, tio. Preciso sim porque o tempo passa muito rápido e eu preciso conhecer muitas pessoas novas ainda. Você eu já conheço muito bem, tio!

  O menino já ia correndo muito apressando quando eu percebi que ele dissera que já me conhecia. Perguntei para ele, gritando, qual era seu nome. Ele me disse que nome não tinha. Perguntei, então, o que ele era. Queria saber com que tipo de criatura eu estava lidando. Ele me disse com tom zombeteiro: “Ainda não me reconheceu, tio? Logo você que bem me conhece! Nem bom, nem mal. Eu sou Vida.” E pôs-se a correr.

Devo ter ficado estático durante muito tempo. Meu corpo doía como se o peso do mundo estivesse sobre mim e meus olhos se fechavam como se todo o tempo tivesse se esvaído. Quando consegui andar, decidi tomar o caminho de casa e descansar. Poderia lidar com tudo isso pela manhã, quando descobrisse que tudo não passou de delírios de uma mente cansada. Chegando em casa, nem de roupa mudei. Deitei na cama e tive o sono mais profundo que jamais tivera. Acordei com o sol já se pondo e fui ao banheiro para verificar os estragos da noite anterior. Senti um alívio ao constatar que nada havia de errado com meu corpo. Nada. Nenhuma lesão por mínima que fosse. Foi tudo um fruto de minha imaginação, com certeza. Mas que horas seriam? Por quanto tempo eu dormi? Bem, eram duas horas no relógio parado quebrado no meu pulso.

***

Trabalho de português: Produção de um conto. Com Thamires Cunha.