quinta-feira, 21 de junho de 2018

Waking Life. Waking Love.

- O que?
- Franze a testa sem entender.
- O que você tanto olha pra lá?
- Aquele casal. Dá pra ver que eles estão apaixonados. É fofo.
- É você ou a cerveja falando?
- Como assim?
- Sorri com deboche. Você tá vidrada, seus olhos brilhando olhando para um casal desconhecido, mas você rejeita relacionamentos e, sabe... amor.
- É diferente.
- Como?
- É que eles acreditam no relacionamento deles, sabe? 
- E você o que? Não acredita que exista alguém para você?
- Esse papo não combina com esse bar. Ri um sorriso torto, com o canto da boca.
- Cara, a cerveja tá aqui pra expandir nossa mente e ajudar a gente a entender a vida. Ri. Sem cerveja eu não vou conseguir acompanhar o raciocínio. Anda.
- Respira profundamente, como se buscasse fôlego antes de começar a falar. tsc! tá. Direciona seus olhos pro copo à sua frente. Eu acredito no amor, sabe? Olha de volta pra pessoa à sua frente. Amor que ama "porque" e "apesar de". Acho que amor é construção. A gente constrói ao reconhecer as qualidades do outro, mas também os defeitos e aceita toda a complexidade. Não dá pra idealizar, pra projetar no outro nossas expectativas e esperar que ele nos atenda porque aí a gente não ama a pessoa, mas a imagem que criamos dessa pessoa. Acho que quando a gente ama, quer o melhor pro outro, quer que ele seja livre pra buscar aquilo que o faz feliz. Quer que ele fique se quiser ficar, não pra nossa felicidade exclusiva, só se isso o fizer feliz. Você entende? É mais altruísta. A gente tem que estar muito seguro pra isso, do contrário, vai se apoiar no sentimento do outro, tipo uma muleta emocional. Não é justo. Não é justo que a gente responsabilize alguém assim pelo nosso bem estar. Eu não quero fazer isso.
- Bufa. Caralho, cara, nunca tirei você por romântica. Ri. Mas, assim, não entendo porque você acha que vai fazer alguém de muleta. Você é bonita, cara, e inteligente. Uma ótima companhia pra cerveja, sempre de boa. Não to falando isso porque você é minha amiga não. Sei lá. Por que você precisaria de uma muleta, ta ligada?
- Lembra das aulas de sociologia, filosofia? Eu acho que as pessoas sempre são alguém em relação a outra pessoa. Tipo, a imagem que você tem de mim é baseada na interação que nós dois temos, que é diferente da interação que eu tive com joãozinho, manezinho, minha mãe ou com o ex. Ri. Cada pessoa é uma pessoa diferente dependendo pra quem você pergunta. Mas nossa autoimagem nossa mente cria com base em tudo que a gente já fez, deixou de fazer, quis, pensou, sentiu. É uma merda. 
- Pera. Pera. Você tá discordando dos elogios que fiz? Tipo, me dizendo que não concorda, que essa não é sua autoimagem, que não gosta de si mesma? Porque isso é doideira! 
- Não é bem isso. Eu to dizendo que eu to.... trabalhando nisso. 
- O que? Você tá lendo essas baboseiras de auto-ajuda? Mais cerveja?
- Ri balançando a cabeça. Não! Pode completar.
- Então explica.
- Eu acho que sou boa em ter empatia com os outros, me colocar no lugar, não julgar. Eu acho que sou boa até em perdoar. Pode demorar um pouco, mas não gosto de guardar maus sentimentos de ninguém, sabe? Ninguém é completamente bom ou mal e eu fiz minhas pazes com isso. YinYang. Mas eu não sou tão boa quando eu preciso ter essa empatia comigo mesma. Eu sou mais dura em me criticar do que aos outros. Eu não me odeio. Não é isso. Eu sei sou boa em algumas coisas. Eu só não sei se me sinto... suficiente? Não sei se essa é a palavra. Eu quero ser melhor, a melhor versão de mim. To trabalhando nisso. Até lá, como é que eu faço pra acreditar que eu sou suficiente pra uma outra pessoa enquanto eu não sou pra mim? E como é que eu faço pra não depender dessa aprovação externa? Eu quero me aprovar. Do contrário, não sou capaz de viver esse amor altruísta que eu acredito porque eu vou precisar do outro comigo. Não querer, precisar. Não porque eu quero que ele seja livre pra ser feliz, sabe? Precisar dele comigo pra me fazer feliz. 
- Cara, você precisa de um homem.
- Machista!
- Não, foi mal, não foi isso que eu quis dizer. Eu já bebi muito, não to pensando direito. 
- Foi merda o que você falou.
- Eu sei, eu sei, desculpa, mas pera, me escuta. O que eu queria dizer é que, tipo, talvez seja bom a gente sentir amor, receber amor para conhecer o amor. Você tá me entendendo? Eu não sei falar bem dessas coisas, mas você disse que pra você o amor é construção, certo? Talvez você possa construir em conjunto, ta ligada? Se ver pelos olhos de outros. Sei lá, acho que vai ser muito difícil pra você conseguir amar a si mesma rejeitando o amor que podem te dar. Você tá se sabotando. Você merece amor, cara. Todo mundo merece. Sei lá, fiquei puto. Ri nervoso. Essas merdas de auto-ajuda não parecem tão ruins agora. Arruma um homem ou um psicólogo. Qualquer coisa que funcione pra sair dessa. Você precisa.
- Respira profundamente. Eu preciso é de mais um cerveja. Levanta o braço. GARÇOM!

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Fé é uma questão do ser.

Eu tenho fé. Fé naquilo que não sei e no que ainda vou entender.
Tudo que é tangível, capaz de ser racionalizado ou grande o suficiente para ser palpável é pequeno demais.
Eu creio na força e poder do desconhecido: No "sobre-humano".

Talvez eu seja só insegura demais pra acreditar que somos obras de nós mesmos, artistas com recursos tão limitados;
ou seria eu demasiadamente vaidosa por achar que somos bons o suficiente pra ter algo maior ao nosso redor, olhando por nós?

É quase confortável pensar que esse delírio que é a vida é uma forma do Homem ser castigado por negar sua divindade e maltratar seu templo.
Como é que a gente pode se considerar tão pequeno?

Somos filhos de Gaia. Somos filhos de Deus. Mas, também, não somos filhos de nós mesmos?
Não nos criamos, modelamos, reinventamos?
Não somos nós quem damos início as coisas, que prosseguimos com elas, que determinamos seu fim?

Se somos donos de nós mesmos, se dentro de nós reside um universo único e particular, não somos também co-criadores de nossas vidas?
Deus não está morto. Deus está vivo em mim.

Eu tenho fé. Fé em algo maior que Eu.
Eu creio na força da minha própria divindade, naquilo que pode me ensinar o que há de mais profundo em mim.


sábado, 8 de agosto de 2015

Àqueles que me desapontaram.

Meu bem, não foi você

Eu sei, clichê
Se vim me desapontar 
Fui eu
Não levei o tempo preciso
Para pensar, analisar

Antes imaginei
Era sua imagem, não foi você
Projetei
Aquilo que eu acreditava merecer
Em alguém

Mas, meu bem, não foi você
Se o que eu quis não foi o que me deu
Fui eu
Que quis o que não podia me dar
Ou fazer

Antes esperei
De alguém, não você
Ansiei
O que ninguém me prometeu
Fui além

Não você, meu bem, mas quem?

Se me frustei entre expectativa e realidade
Fui eu
Não pude apreciar o pássaro na mão
Irredutível
Preferi nós dois voando

Perdão!

sábado, 2 de maio de 2015

"Ficar ou partir?"

  Todo dia é o mesmo já se vão muitos anos. Todo dia vou de encontro ao meu destino. Eu tenho tentado novos caminhos, procurado por atalhos ou por alguma coisa (que não sei exatamente o quê) que torne a travessia mais agradável, mas o fato permanece: todo dia eu chego ao meu destino atualmente localizado no número noventa e oito da Rua México.

  Ainda que eu possa pegar dois ônibus pelo preço de um e descer bem na porta do meu destino, costumo pegar apenas um, mas que me deixa uns vinte minutos livre. Assim, me aventuro cada dia por uma rua, por uma nova esquina com novos outdoors chamando minha atenção, descobrindo novas fachadas tombadas pelo patrimônio histórico sem nenhuma construção por trás ou caminhando, corajosa, por cima de bueiros desconhecidos sem saber se ventam ou não. 

  Perdi as contas de quantas vezes minha saia levantou, frise-se, desagradavelmente, numa cena digna da Rainha Monroe por um bueiro que não devia estar ali ou me decepcionei por não existir nada por trás de uma fachada que, pela arquitetura encantadora, só poderia ser da Belle Époque. Há, no entanto, uma beleza que permeia toda descoberta e se traduz na satisfação das perguntas respondidas. Se me perguntarem, por exemplo, se conheço um bom café, recomendo o Armazém do Café, na Rua do Ouvidor. 

  Anseio conhecer cada esquina que esteja numa rota possível em direção ao meu destino. Eu adoro passar pela Rua da Candelária, bater perna pela Rua Primeiro de Março, virar na Rua Sete de Setembro, pegar a Avenida Rio Branco e só então chegar à Rua México. Isso em um dia bonito. Já aconteceu de eu tentar fazer esse caminho em um dia chuvoso que eu estava curiosamente mal-humorada pra ver se passava. Momentaneamente, só fiz piorar meu humor. "E se?" eu não tivesse tentado melhorar meu humor? Provavelmente teria chegado seca ao meu destino, mas não saberia como é bonita a Rua da Candelária com pingos e poças brilhantes de chuva e sol.

  Ainda não percorri todos os caminhos e pouco conheço dos que já percorri. Quero percorrer e conhecê-los todos em todas suas variantes: com sol ou chuva, dia ou noite, outono, primavera, inverno ou verão. Pretendo encontrar um caminho que seja capaz de melhorar meu humor em qualquer estação do ano, hora do dia ou tempo, me inspirando beleza e o conforto do conhecido. 

  Algumas vezes, escutando o Vento me dizer que o esforço pra lembrar é a vontade de esquecer, me pergunto se meu ânimo por esses vinte minutos que passo tentando achar o melhor caminho não seria, de alguma forma, um indício de que não quero chegar. Então me percebo míope sem querer enxergar que o meu destino, escolhido por mim, é esperado e bem vindo e o que eu faço é aproveitar o caminho sabendo que é inevitável a chegada. E partida.

  Sei que há de chegar o dia em que meu destino mudará de endereço como já fez outras tantas vezes antes. Sei que acontecerá quando meu caminho me passar o conforto do conhecido. Não sei aonde irá meu destino, mas sei que terei de segui-lo. O caminho que farei é um mistério.

  Cada vez que acredito conhecer o caminho a se fazer para chegar ao meu destino, ele muda de lugar. Se eu alimento uma certeza, ele me cria uma dúvida. Parece não querer que eu crie raízes em nenhum lugar. Falando assim, parece muito egoísta o meu destino, mas é a mim que importa mais o caminho que faço para chegar até ele do que o fato de chegar. Meu destino é solucionar as questões que eu mesma me proponho. Não tenho lugar. A cada questão resolvida, vou em busca de resolver a próxima. Cada vez que chego, parto. E é para isso que serve meu destino: para que eu não deixe de caminhar.

  Todo dia é o mesmo já se vão muitos anos. Todo dia vou de encontro ao meu destino.

  Mas se você me perguntar agora, eu adoraria me fazer uma pergunta sem resposta e, cansada de caminhar, ficar.




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terça-feira, 25 de junho de 2013

Sonhos que eu queria viver.

O vento sopra
O tempo esfria
De noite acordo pra me cobrir

Uso lençol
Por cima edredom
Em casulo me enrolo
E aninho

Tento dormir 

Com pé ainda gelado
Dedos gelados
Rosto amassado
Conforto não tem

Tanto aperto os olhos
Quase olho pra dentro
Volto ao sonho
Espero o embalar do sono

Não vem

Não olho o relógio pra não vê-lo rodar
Num constante parar
E então seguir

Acostumo com a pouca claridade
Vejo formas disformes de passagem
Em cada minuto, incabível eternidade
Enlouqueço por só meus pensamentos ouvir

Faço-me companhia 
Fantasiando acordada
Histórias pr'eu dormir
Coisas que nem vivi

O dia raia
O sol já brilha
De manhã me descubro a mim.

terça-feira, 4 de junho de 2013

(Mesmo que no futuro se repita o passado) O agora é um presente. O novo sempre vem.

  2013 é o ano da mudança.


  Novidades vieram se anunciando calma e lentamente desde meados do ano que passou, mas foi uma surpresa para mim quando, de repente, notei muitas coisas diferentes a minha volta. Acho que isso é como envelhecer: a gente sabe que um dia a juventude vai embora e se olha todo dia no espelho sem notar nada diferente, até que em uma manhã que tinha tudo para ser como qualquer outra nos assustamos ao encontrar a primeira ruga ou fio de cabelo branco. 

 Não tive festa de 15 anos pra me apresentar para a sociedade como mulher. Não quis. Não vi propósito. Dia 16 de setembro de 2010 eu era a mesma menina que fui dia anterior. Eu tive festa de formatura. Formatura. Formação. Eu estava formada e isso sim tem algum significado.


 Não, meu corpo ainda não foi tatuado pelo tempo como lembrete de que tudo passa, inclusive a Vida. Eu estou apenas começando a aprendendo agora a caminhar com meus próprios pés. 
Dezessete anos de vida e apesar de ter feito tudo o que fiz, ainda sou a mesma que vivia como meus pais.

 Mas o que significa isso de começar a caminhar com os próprios pés? Significa que é hora de colocar em prática tudo que aprendi até hoje e continuar com o aprendizado. Significa se desfazer das ilusões e adaptar a perspectiva romântica que acompanha a inocência à realista. Saber lidar com a realidade, com a rejeição e o não. Mas acima de tudo, significa ter paciência.

 Crescer é entender quem nós somos, o tempo, os limites e o outro.

 Em 2013 eu cresci como pessoa.

* * *

                                                         REF.: Maria Rita - Como Nossos Pais

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Eu não sei você, mas eu adoraria saber o gosto de umas palavras.


  Não me recordo da primeira vez que escutei falar sobre essa coisa de sinestesia. Tenho pra mim que foi numa das primeiras vezes em que joguei The Sims, quando resolvi reparar nas frases que apareciam na tela justificando a demora pra carregar o jogo. Lembro bem de uma que dizia que estavam "eliminando mágicos de araque" e, pelo tempo que isso demorava, eu imaginava que eram mágicos de araque muito bons, mas... porém... contudo... todavia... devo embaraçosamente dizer que a culpa era toda minha por tentar carregar esse jogo com todas suas oito expansões em um Windows 95.

  Pois bem. Sinestesia. Essa palavra me incomodou durante muito, muito tempo. Nunca gostei de coisas que eu não conseguia entender, então sempre que eu via essa palavra eu pensava em procurar seu significado, mas com todo aquele jogo de sedução que me mantinha horas a fio em frente ao computador, posso dizer que foi uma batalha épica com a minha memória até que eu conseguisse lembrar que, caramba!, já era hora de eu descobrir o que aquilo significava.

  O que eu achei dizia respeito a uma das figuras de linguagem que misturava percepções de sentidos diferentes, como quando Casimiro de Abreu disse que as falas sentidas que os olhos falavam, ele não queria, não podia e não devia contar. Ainda me impressiono com o poder que essa figura tem de dar vida aos textos. Eu gosto de pensar que é porque eu posso sentir a "frase sinesteta".

  Foi bastante tempo depois que eu descobri que sinestesia era também uma condição neurológica que permitia que as pessoas sentissem de verdade um cheiro adocicado ou que escutassem uma música azul. É uma condição tão ímpar que é difícil até assimilar a ideia. Acho que a palavra que eu procuro é transcendental.

  Imagine viver em um mundo em que você pudesse ver as cores das notas musicais, sentir o gosto dos aromas, a temperatura dos sabores ou até os sons dos cheiros. Imagine todas as suas vivencias cotidianas acrescidas de mais informação. Imagine escutar um som quando o semáforo mudar de vermelho pra verde, sentir o gosto do cheirinho de frango assado, a emoção que vem junto com o chocolate, descobrir a temperatura da pimenta ou observar a explosão de cores de uma música de bossa. Eu acho que seria uma aventura fazer qualquer coisa nova. Uma viagem. Um beijo. Ligar a TV. Amor.

  Eu acho que não perderíamos uma só lembrança.

  Eu acho que lembraria bem da primeira vez que escutei falar sobre essa coisa de sinestesia se eu tivesse algum quê de sinesteta. Tenho certeza que ela seria, ao menos, alguma coisa além de uma palavra. Não gosto de lembrar fatos com clareza e não das minhas percepções sensoriais. Não gosto de coisas que não consigo entender e não entendo nada de sensações e sentidos. Mas de uma coisa eu sei:

  Eu me entenderia melhor se eu conseguisse sentir o exato gosto dos "sim" e dos "não".

terça-feira, 26 de março de 2013

Quando o ócio não é produtivo, é esclarecedor.

  Já é noite, mas o dia foi longo. O sol, que sempre nasce na minha janela e ilumina todo meu quarto, acordou-me antes do despertar do relógio. Estava claro demais para voltar a dormir e cedo demais pra fazer qualquer outra coisa. Continuei deitada esperando que meu corpo e mente reagissem a luz do dia, na esperança de que algum deles me dissesse "ei, preguiçosa, hora de levantar!", como fazia minha mãe quando me acordava nos dias de escola. Nenhum dos dois me deixou saber se já estava na hora ou não e, sendo bastante sincera, perdi a noção de tempo porque minha cabeça estava vazia. Cá entre nós, às vezes uso a quantidade de coisas idiotas que passam pela minha cabeça como marcador de tempo.


  Num estado de completa inércia mental e corporal, resolvi olhar a hora que marcava o relógio. Eram sete horas e dezoito minutos. Assim, escritos assim mesmo pra vocês perceberem o quanto esse tempo passou arrastado. Depois de tanto me enroscar e aconchegar nos lençóis esperando o tempo passar, ainda eram sete horas e dezoito minutos.

  Levantei da cama levando as cobertas comigo pra usá-las como mantas e fui tomar café da manhã. Pra combinar com o ócio do momento, comi pão com pouca-manteiga e tomei uma xícara de café-com-leite-com-uma-colher-de-açúcar bem quentinho. Sempre fico sozinha em casa pela manhã e prefiro ficar no meu quarto porque quando escuto algum barulho, é mais fácil tomar conta de uma porta do que de três: da sala, da cozinha e da área de serviço. É sempre uma "aventura" ficar sozinha em casa - entre muitas aspas, claro - e tem algo de muito libertador nisso também. Eu gosto.

  Dei um tempo pro café da manhã assentar no estômago e fui fazer ioga, uma "reverência ao sol" pra retribuir o bom dia que ele veio me desejar. Foi horrível! Meu corpo doía inteiro porque na última festa que eu fui até tombo levei, mas no final das contas enfrentar isso valeu a pena, já que agora consigo sentar numa cadeira sem dizer "aaaaai!". Fui tomar banho porque não gosto de sair de casa com o cabelo molhado e gosto que ele seque ao natural. O relógio despertou logo que entrei no banho, mas ignorei e deixei que tocasse. Demorei quase duas horas no chuveiro. Ainda está no meu celular o aviso de alarme perdido. A partir daí o tempo correu bem rápido.

  Me vesti ao som de Ramones, The Who, Joan Jett, Red Hot e Arctic colocando cada peça de roupa no ritmo das músicas. Meu pé prendeu no short e fiquei pulando num pé só tentando manter o equilíbrio. Fiz meu almoço, comi, fiz limonada com gengibre, bebi, escovei os dentes e, quando percebi, já estava na hora de sair de casa.


  Meu curso começava às 14h, mas tinha que sair antes de casa pra imprimir meu currículo, tirar xerox da identidade, passar no cartório e ir no colégio onde eu fiz o fundamental pra pedir meu histórico escolar. Esqueci dessa última parte e peguei-me na rua cedo demais pra chegar no curso e "sem nada pra fazer". Lembrei de uma papelaria onde vende umas coisas muito legais e fui pra lá esperar o tempo passar. A vendedora deve ter achado muito estranho eu ficar lá tanto tempo olhando especificamente pra ... nada e, por isso, veio puxar assunto comigo. Eu estava com uma apostila e o currículo nas mãos.


  "Procurando emprego de que?" ela perguntou. Eu ri da forma como isso soou louco. Eu, 17 anos, míseros 1,59m de altura que tornam impossível ter uma conversa com alguém sem que essa pessoa olhe pra baixo, procurando emprego. "É pra estágio" eu disse rindo. Engatamos em uma conversa sobre minha vida que me fazia rir da naturalidade com que ela dava opinião sobre o que eu devia fazer sem ao menos saber meu nome. 13:52h: Hora de ir pro pré-vestibular.

  De 14h às 17:30h eu ri no curso com meu professor de uma-matéria-que-eu-já-dei contando de um trote que ele deu nos alunos vestindo outro professor de padre e fazendo todo mundo rezar por uma hora e meia. Mas entre uma risada e um exercício, a moça da papelaria e a nossa conversa me voltava a cabeça. Eu estava bastante incomodada com alguma coisa e não conseguia descobrir o que era até que um amigo me disparou: "Quando você chegar em casa já vai ter uma resposta do estágio!"


  Aí eu entendi. Agora eu entendi tudo.

  Demorar pra levantar. Ócio. Tomar café da manhã com calma. Festas. Banhos demorados. Almoçar em casa. Fazer hora olhando vitrines. "Panfletar" currículo. 


  Nem me formei e já estou desempregada.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Como nos conhecemos.

  Tarde de inverno no RJ. Saio no início da noite para dar uma volta nas pedras do Arpoador.


  Curto, solitariamente, minhas lembranças, tristeza e solidão. De repente, percebo um rapaz que se posiciona como alguém que pretende se atirar ao mar. Corro ao seu encontro e nos chocamos de frente quando o jovem abruptamente gira seu corpo em minha direção, pois estava munido de toda minha força e velocidade para salvar-lhe a vida tirando-o dali. Reparo enquanto caímos colados que apesar da profunda surpresa que estava estampada em seu rosto dada à minha atitude, nada nele indicava qualquer sinal de perturbação mental ou emocional.

Nossa queda nas pedras fez um barulho que me lembrou do rasgar de um papel e, molhadas da chuva daquela tarde, escorregamos para as pedras mais baixas, mais próximas ao mar.

Desde nosso choque até o escorregão, tudo aconteceu em frações de segundos. Rápido demais para que tentássemos encontrar qualquer forma de nos proteger das pancadas e arranhões, mas ao mesmo tempo foram instantes muito arrastados. Parou de serenar, o vento interrompeu a cantoria e até a cidade ao fundo se apagou. Tentei imaginar que horas eram. Duas horas da manhã no relógio quebrado no meu pulso. O tempo parou ali.

  Quando me recuperei do susto e consegui juntar o mínimo de minha dignidade espalhada entre as roupas rasgadas e sujas e o corpo machucado, levantei-me. Ainda apoiado nos braços como uma criança que engatinha, procurei pelo rapaz para oferecer-lhe a mão, mas pelo chão nada encontrei. O que vi, na verdade, foi um par de calcanhares e pernas bem firmes e fincadas na borda da pedra. Pus-me de pé e fui até ele. Novamente, como que para repetir a aventura, o rapaz virou-se repentinamente para mim. “Você veio pra me ajudar a chegar às estrelas?” perguntou ele.

  Fiquei atônito e temeroso. Não consegui achar uma resposta para a pergunta, tampouco de entender seu significado. A pergunta ressoava em minha cabeça: “Você veio pra me ajudar a chegar às estrelas?”. Só conseguia pensar que, na tentativa mal executada de ser um herói salvando aquele rapaz, eu tinha ocasionado a ele algum tipo de concussão, dano cerebral ou coisa assim. Tenho certeza que ele reparou em meu conflito interno, pois o vi franzir o cenho e inclinar a cabeça num ato de deliberada curiosidade. Na ausência de qualquer reação minha, “você vai me ajudar ou não?” ele insistiu.

  Com as incessantes investidas do menino que tentava me arrancar uma resposta, percebi que até o momento eu não havia dito nem sequer uma palavra e estava curioso e preocupado sobre seu estado de saúde, bem como sobre o motivo que o levara até as pedras àquela hora da noite. Não era um menino crescido. Não devia andar assim, sozinho. Achei que seria rude começar pelas perguntas movidas a mesquinhez da curiosidade pura, mas atropelei-me nas perguntas:

  - Como você está rapaz? Onde dói? Você não deveria andar sozinho, deveria? – falei enrolando a língua e emendando palavras.

  - Não estou sozinho. Você veio me ajudar. – respondeu somente.

Como pude esquecer? Ele queria ajuda com as estrelas. Eu devia responder aquilo antes de perguntar.

- Talvez eu possa te ajudar depois de irmos ao médico. O que acha?

- Precisamos recolher as estrelas agora! – respondeu com uma fúria repentina.

  Eu estava ficando profundamente assustado com aquele menino, mas não podia deixa-lo ali sozinho, podia? Não. Não podia. E se ainda fosse culpa minha seu estado de confusão, eu devia ajuda-lo a ter conforto, certo? Mas ele... Ele quem?

  - Tudo bem, vou te ajudar a chegar às estrelas. Como se chama?

  - Precisamos de uma rede, moço. Uma rede maior. Sempre que eu lanço a minha ela volta vazia. Mais vazia que você de alegria. Não alcança as grandes lá do fundo. As pequeninas passam pelos furos. E eu preciso de muitas, moço. Eu preciso de muitas e ainda não peguei nenhuma!

  Sua voz estava pedinte, suplicante, alterada. Definitivamente o menino não estava bem da cabeça, mas havia um tom de urgência e sinceridade que me impeliram a ajudá-lo. Perguntei a ele sobre sua rede e ele me apontou o vazio. Disfarcei o espanto e fiz como se pegasse algo do chão. Disse a ele que eu era mais forte e lançaria mais longe e imediatamente a expressão do menino mudou como se um fio de esperança atravessasse sua mente. Como se... Como se ele ficasse mais jovem e a inocência lhe invadisse. Ele parecia realmente mais jovem. Não. Ele estava mais jovem. Como é possível? Mas não é possível. Não. Que besteira. Minha mente está me pregando peças novamente. Deve ser a insônia ou a queda.

  Lancei a rede imaginária ao ar, esperei, puxei. Não sabia ao certo o que eu deveria tentar pegar e como não houve nenhum gesto que indicasse que o menino percebera, continuei a puxar. Puxei por um tempo como quando um pescador fisga um peixe ao longe e precisa trazê-lo pra perto. Podia notar a agitação do menino atrás de mim, esticando o corpo e pescoço para enxergar minha rede.

  Você conseguiu! Duas, três, quatro. Quatro estrelinhas pra mim! – O menino explodiu numa mistura de palavras e risadas. – Conseguiu sim! – e ria sem parar.

  A risada atingiu-me em cheio e ri também. O menino enxergava ali toda sua felicidade. Quanto a mim, tudo que eu via era um noite tão escura que se confundia céu e mar. Não fosse a forma disforme e quase melancólica com que a água refletia os pingos de luz saltados do céu, acreditaria que era tudo um só. Nada naquela noite parecia real para mim a não ser a felicidade daquele menino ao ver as estrelas. Isso era tão palpável que eu, vazio de alegrias e cheio de minhas tristezas, fui agraciado com o milagre do riso.

Mantive o foco no que eu estava fazendo, mirando no horizonte cada vez mais longe. O menino queria muitas estrelas e eu queria que isso acabasse. Suas perguntas e explosões tornavam-se mais frequentes. Sentia-me idiota tentando pegar uma coisa que eu nem via. Além do mais, o menino já tinha passado da época de fazer esse tipo de coisa. Será que ele mesmo acreditava no que me pedia? E se acreditava, por que queria pegar todas elas? O céu fica mais bonito quando enfeitado. Sem elas, é só um breu infinito e a lua sozinha. Muito cru.

Efeito do cansaço, sentia a rede cada vez mais pesada em meus braços. Sempre que a rede chegava à pedra, o menino exaltava-se novamente de forma cada vez mais animada e dizia-me que faltavam menos que antes. Nem sei quantas vezes ele me agradeceu. Eu já não olhava pra mais pra trás. Só jogava o suposto conteúdo da rede para o lado e ele catava tudo quase que imediatamente. Não queria perder nenhuma, disse-me uma vez. Precisava de muitas e precisava bem rápido.

  Permiti-me um esticar de costas, pois elas doíam de tanto ficar na mesma posição. Ergui minha cabeça e fui invadido por uma confusão novamente. Não vi nada além do mar. A cidade ao fundo desapareceu na negritude da noite. Que horas da madrugada deveriam ser? Há quanto tempo estávamos ali? A essa altura, até o mar estava praticamente todo negro, com poucos pontos distantes de luz, reflexos das estrelas. Peguei-me pensando se eu estava mesmo pescando estrelas e decidi que, novamente, minha mente me pregava peças.

  Lancei a rede de novo no mar e puxei o que pareceu ser o peso do mundo. Para me distrair... Bem, não só para me distrair como também para saber o motivo pelo qual passei horas intermináveis puxando pesos inexistentes, perguntei ao menino:

- Para que você precisa de tantas estrelas?

- Não se preocupe, tio! – ele respondeu – Essa é a última rede que você precisa jogar.

  Quando a rede chegou à pedra em que estávamos, lancei o conteúdo para ele como fiz das outras vezes. Quantas vezes? Vinte, vinte e poucas vezes, talvez. Talvez mais. Perdi minhas contas e o interesse em contar. Aquilo nunca chegava ao fim porque, afinal de contas, eram estrelas. Ninguém consegue nem imaginar quantas são. Mas eu, segundo aquele menino, pesquei todas para ele naquela noite.

Quando consegui mover minha coluna maltratada pela posição e desgraçada pela idade, me virei para encarar aquele rapaz. Eu realmente queria saber quais eram seus objetivos e pensava sinceramente em levá-lo ao médico por causa de nossa queda. Mas o que encontrei ao virar fez de mim, um homem pra quem só o que falta fazer é morrer, uma confusão pior que bate papo de adolescentes. O rapaz havia desaparecido. Ainda vasculhei nossa pedra em busca de algum sinal dele, mas nada encontrei. O que estava na minha frente era outra coisa. Uma coisa que parecia saída dos meus pesadelos. Uma coisa que sempre me aterrorizou durante toda minha vida. Uma criança, Deus, uma criança pequena.

Mas não era uma criança comum. Tinha no olhar aquele ar sábio que as pessoas idosas geralmente têm quando dão conselhos e parecia cansado como quem trabalha incessantemente, dia e noite, sem folgar.

De pés unidos, bracinhos colados ao corpo, mãos nos bolsos e olhos enormes, uma criança me fitava. Minha incredulidade no que eu via foi percebida pelo menininho, que veio até mim, abraçou-me as pernas e disse “obrigado pelas estrelas, tio!”. Geralmente os adultos respondem as perguntas das crianças, coisa que sempre me irritou profundamente – “não podiam aprender sozinhos?” sempre me perguntava, mas naquela hora, Deus, eu tinha tantas perguntas... Insisti, como fazem as crianças, na última que tinha feito e não foi respondida. “Para que quer as estrelas, menino?” eu perguntei e de súbito percebi meu erro. As crianças aprendem sozinhas sim e por isso perguntam. Caso alguém as ensinasse, apenas balançariam a cabeça em concordância como fazemos depois de grandes.

  - Não quero pra mim – respondeu. – Quero devolvê-las todas! Todinhas!

- Então me fez recolher todas as estrelas para arremessa-las ao mar novamente? Que espécie de travessura do mal é essa? – perguntei esquecendo que, na verdade, nada recolhi. - Que menino travesso você! Para fazer isso com um homem de bem só pode ter vindo do inferno! Do in-fer-no! – Prolonguei as sílabas, pois já estava muito cansado e a cólera me dominava. Além de maluco, porque só podia ser o que eu era, eu era um maluco feito de bobo por algum pequeno anjo mau.

- Não seja bobo, tio! – e o menino ria aquele riso que me fez rir. – Eu quero devolvê-las aos donos pra que sejam felizes. O céu brilha tanto porque tá cheio de estrelas perdidas! Elas que antes moravam nos olhos das pessoas, escorregaram quando eles estavam molhados, que nem a gente na pedra, lembra, tio? E se perderam, as coitadinhas! Daí elas vão pra onde todos possam ver e brilham, brilham e brilham tentando achar suas casas, mas ninguém procura mais! Não sei quem teve essa ideia de que Felicidade a gente só encontra uma vez... Eu encontrei! Eu encontrei a de muita, muita gente! E eu vou devolver todas, todinhas! E as pessoas vão ficar felizes, tio! Eu prometo! Mas agora eu preciso ir, tio. Preciso sim porque o tempo passa muito rápido e eu preciso conhecer muitas pessoas novas ainda. Você eu já conheço muito bem, tio!

  O menino já ia correndo muito apressando quando eu percebi que ele dissera que já me conhecia. Perguntei para ele, gritando, qual era seu nome. Ele me disse que nome não tinha. Perguntei, então, o que ele era. Queria saber com que tipo de criatura eu estava lidando. Ele me disse com tom zombeteiro: “Ainda não me reconheceu, tio? Logo você que bem me conhece! Nem bom, nem mal. Eu sou Vida.” E pôs-se a correr.

Devo ter ficado estático durante muito tempo. Meu corpo doía como se o peso do mundo estivesse sobre mim e meus olhos se fechavam como se todo o tempo tivesse se esvaído. Quando consegui andar, decidi tomar o caminho de casa e descansar. Poderia lidar com tudo isso pela manhã, quando descobrisse que tudo não passou de delírios de uma mente cansada. Chegando em casa, nem de roupa mudei. Deitei na cama e tive o sono mais profundo que jamais tivera. Acordei com o sol já se pondo e fui ao banheiro para verificar os estragos da noite anterior. Senti um alívio ao constatar que nada havia de errado com meu corpo. Nada. Nenhuma lesão por mínima que fosse. Foi tudo um fruto de minha imaginação, com certeza. Mas que horas seriam? Por quanto tempo eu dormi? Bem, eram duas horas no relógio parado quebrado no meu pulso.

***

Trabalho de português: Produção de um conto. Com Thamires Cunha.

domingo, 23 de dezembro de 2012

A balança não é o símbolo da justiça?!

  Este não será um texto poético. Para os desinteressados em minha vida pessoal, aconselho inclusive que não o leia. Vou apenas esboçar algumas das conclusões a que cheguei com o tradicional balanço anual dos acontecimentos. 
 Final de ano todo mundo se (i) mobiliza para olhar pra trás e repensar o que se passou. 

 Aconteceram coisas demais pra mim. Pra ser bem sincera, a quantidade de coisas boas foi bastante generosa, mas a de coisas ruins foi exata. Uma coisa que foi no mínimo uma gozação do destino é que sempre em meio a tanta felicidade chegava alguma notícia ruim. Nenhuma tragédia grega, mas sempre o suficiente pra criar um conflito interno que me obrigava a repensar em como agir ou lidar com aquilo. Pensava tanto e em tantas possibilidades que cheguei a me sentir como Sherlock Holmes prevendo todos os próximos possíveis passos.

 Pensei tanto e em tantas possibilidades... Cada possibilidade descartada era uma parte minha ignorada, deixada pra trás. Era uma escolha do caminho que eu queria seguir, da pessoa que eu queria ser. Mais perdi partes minhas do que me encontrei.

 Mas encontrei-me.

 Uma coisa que eu entendi é que maturidade está mais relacionada a saber lidar com seus conflitos internos do que seus problemas do dia-a-dia. Nunca amadureci tanto quanto nesse ano de 2012 e se algum dia já disse que dá pra aprender com os erros dos outros, lavo minha boca com esfregão. Só aprendi porque tive que consertar cada erro que cometi, e não foram poucos. A gente aprende na prática e dando a cara a tapa. Tomei vários. O tapa nos outros só deixa a gente com medo.

 Está aí outra coisa que eu aprendi: O medo só passa quando a gente passa por ele. O instante em que você vai precisar enfrentá-lo vai chegar. Sempre chega. Quanto mais você adiar, mais vai viver com medo do inevitável. 

 Não é como se eu não tivesse mais medo. A verdade é que eu sempre me apavoro e, porque me apavoro, menos tempo o quero me acompanhando.

 Tem uma história que diz que o corajoso morreu na guerra e o medroso está abraçando sua mulher na cama. Talvez seja por isso, vai saber...

 Eu não sei. Só sei que foi assim pra mim. 

domingo, 2 de dezembro de 2012

Governando um estado.

Das minhas mais antigas memórias,
uma coisa me lembro bem:
De como sempre me senti

em meio aos meus conflitos pessoais;

No meio das minhas dúvidas e
no ápice das certezas minhas.

Combustão bipolar.

Não sei quase sorrir ou quase chorar;
Um estado não admite a confusão
de quase ser ou quase estar.

Quem governa-me o estado é o coração
e a razão nenhuma emoção compreende.
Como eu posso me comportar como se fosse alguém que entende? 

domingo, 14 de outubro de 2012

Era inverno e eu tinha 16. Agora são 17 primaveras.

 Começou a chover agora e eu sabia que ela viria. "Chuva de verão" na primavera. Meu nariz me irritou e a temperatura caiu tão rápido que pude não só sentir o arrepio correndo pela minha espinha, como também vê-lo pontuando meu braço como se dissesse "vá botar um casaco!" em algum tipo de braille corporal. E então choveu. Eu estava esperando por isso.

 Descobri faz algum tempo que simpatizo com a chuva; gosto do barulho que ela faz na minha janela de alumínio quando está tudo quieto - como agora -, do cheiro ela traz e até do chiado que ela cria na paisagem quando eu olho pra um poste ou farol dos carros e vejo aqueles riscos de pingos e resquícios de cores.

 Gosto de pensar que isso tudo começou quando eu era menina menor-ainda (gosto porque procurar memórias antigas tendo só 17 anos não é tarefa fácil) e minha mãe me mandava tomar banho da primeira chuva de cada ano pra deixar tudo de ruim ir embora junto com as gotinhas que escorriam e secavam depois. Mas eu era só uma menina e, na época, isso tudo não passava de molecagem ou de um jeito rápido de limpar o melado que os doces de Ano Novo deixavam.

 Hoje, quando ela chega pra mim, sempre tenho a sensação de que um velho amigo veio me fazer uma visita. Um amigo com uma pontualidade questionável, é verdade, porque nunca chega quando eu chamo. É mais do tipo que espera um pouquinho pra aumentar a vontade e pegar de surpresa, mas ainda sim do tipo que a gente sempre pode contar. Seja naquele diazinho que a vontade é de fazer nada ou naquele calor que machuca, uns pinguinhos barulhentos sempre vão bem.

 Mas posso entender quem diz não gostar quando chove e molha o chão com terra e faz lama e suja o sapato que respinga na meia e molha a roupa, a cara e borra a maquiagem e estraga o penteado porque gente grande é assim mesmo: gosta de tudo nos conformes e sob controle. Mesmo assim saio em sua defesa: é precipitação de quem não a coloca nos planos.

 Qualquer que seja a causa dessa minha paixão, a verdade é que a chuva, com esse leva e traz, traz pra mim uma irônica sensação de renovação. Ouso comparar essa relação com um amigo que leva o outro pra uma bebedeira pra afogar as mágoas. A diferença é que ela não tem que me carregar e eu não tenho ressaca. A ressaca fica pro mar. Mas isso fica muito longe de mim...

sábado, 15 de setembro de 2012

Terra com Água faz poça de lama. Às vezes é divertido.

Tenho uma estúpida necessidade de buscar explicação pra todas as coisas. Tentei as ciências uma vez. Achei chato, quadrado, antiquado. Havia tanta certeza sobre tudo que era dito e escrito e comprovado empiricamente que me senti deslocada já que o motivo de eu estar lá era minha incerteza. Escutei também minha tia contar a história da bíblia, mas nessa eu decidi que não queria acreditar. Pra um casal povoar o mundo alguma coisa de muito errada tinha nessa família e isso não era nada senão doentio. Procurei por outras coisas que me trouxessem todas as respostas que eu queria, mas nada achei que me satisfizesse.

  Resolvi acreditar no que acho de mais belo.

  Conheço teorias de grandes pensadores sobre a formação da sociedade e do indivíduo. Algumas me agradam enquanto outras me enervam e todas me fazem pensar em quem somos nós, mas nenhuma delas me disse o que tem influência sobre tudo e todos. Sempre com porém demais, exceção demais. Sempre depende demais, depende de mais. Deveria existir alguma teoria universal e isso é muito lógico porque em certo ponto somos todos iguais. Tinha que existir. Às cegas, dei de cara com a astrologia e me encantei. Acredito piamente nos seus dizeres. Não em horóscopo escrito no jornal, mas foi muito óbvio pra mim que corpos enormes como as estrelas e planetas exerceriam alguma força sobre nós. São muito grandes e pesados pra se manterem ausentes ou passarem despercebidos. Posso explicar pela física que são eles os corpos geradores do campo e nós os corpos de prova - e postos a prova.

 Li algumas vezes uma lenda que personifica os corpos celestes em doze crianças. Conta ela que Deus escolheu os anjinhos a dedo e atribuiu a cada um deles uma função atrelada a um dom. Cada uma delas devia cuidar de uma porção da Vida. Cada uma delas responsável por uma porção da Criação.

Virgem e Peixes cuidam de mim.

Disse Deus para Ela: "A ti Virgem, peço que empreendas um exame de tudo o que os homens fizeram com a Minha Criação. Terás que observar com perspicácia os caminhos que percorrem, e lembrá-los de seus erros, de modo que através de ti Minha Criação possa ser aperfeiçoada. Para que assim o faças, Eu te concedo o dom da Pureza." e por final para Ele: "A ti, Peixes, dou a mais difícil de todas as tarefas. Peço-te que reúnas todas as tristezas dos homens e as traga de volta para Mim. Tuas lágrimas serão, no fundo, Minhas lágrimas. A tristeza e o padecimento que terás de absorver são os efeitos das distorções impostas pelo homem à Minha Idéia, mas cabe a ti levar até eles a compaixão, para que possam tentar de novo. Por esta tarefa, Eu te concedo o dom mais alto de todos: tu serás o único de Meus doze filhos que Me compreenderás. Mas este dom do Entendimento é só para ti Peixes, pois quando tentares difundí-lo entre os homens eles não te escutarão."

 Do casamento de Virgem e Peixes nasceu uma constelação circular.

terça-feira, 19 de junho de 2012

"O que é que há, pois, num nome?"

"Aquilo a que chamamos rosa, mesmo com outro nome, cheiraria igualmente bem." - William Shakespeare.

Sei muito pouco sobre algumas coisas e ainda tem coisas sobre o que nada sei, mas posso dizer que ser só uma unidade nesse infindável mar de gente mexe um pouco com a gente. Somos muitos. Somos muitos buscando "ser alguém", tentando ser reconhecidos por quem somos. Mas, afinal, quem somos nós?

Quem sou eu? Será que meus pensamentos ainda me pertenceriam se eu tivesse nascido Jéssica ao invés de Andressa? E se meu pai cantasse pra mim que "o nome dela é Jéssica, eu já falei pra vocês. É a coisa mais linda que Deus pôde trazer" ao invés de cantar que eu valia ouro, todo seu tesouro?

Cada vez mais acredito que, como as flores, as pessoas são sim produto do meio onde foram cultivadas, mas em nível de formação do caráter individual. A coisa complica um pouco quando a gente leva em consideração uma inconstante: a mente de cada um. Se duas pessoas que leem o mesmo livro podem senti-lo cada um a sua forma, duas pessoas vivendo no mesmo meio podem tomar rumos diferentes: eles variam de acordo com a compreensão do correto de cada um.


Percebe que pra ser aquele alguém que você tenta ser é necessário ser você? Seu valor está exatamente em quem você é. Acredito sinceramente que das conquistas que a gente acumula vivendo, descobrir o Eu é a mais valiosa. Até porque, meu caro, só mesmo a partir dela é que você vai definir o que lhe é valioso.


Não sei bem como foi que me descobri, mas deixe que eu me apresente: Eu sou a menina que meus pais criaram, que dormia na cama com a vovó e que, pequenina, adorava se fantasiar e criar histórias mirabolantes pra justificar aquela roupa. Eu não sei ao certo quanto vale isso e, certamente, para algumas pessoas tem mais valor que para outras, mas eu tenho orgulho das coisas que fazem de mim eu. Isso deve significar alguma coisa.



segunda-feira, 30 de abril de 2012

No inglês não há nenhuma palavra que traduza o sentimento de saudade.

Sabe, é bem verdade que pensar muito enlouquece. Eu não recomendo que você o faça, a menos que já esteja como eu. Aliás, o que seria a loucura afinal? Não se encaixar nessa realidade e viver uma paralela? Porque, bem, eu me encaixo. Encaixo-me nisso de não me encaixar.

Andei delirando sobre o surgimento da ironia. Em meu devaneio, ela nasceu de um profundo desprezo pela comunicação. Procure entender: Não é como se desprezassem a palavra pela qual se comunica, mas como se repudiasse a necessidade de fazê-lo.

Isso acontece quando a sua crítica àquilo que foi dito é tão forte e óbvia pra você, que a única forma de fazê-la sem deixar que soe banal é fazendo com que as palavras digam o contrário dos seus pensamentos. E o mais interessante é que aquilo que era pra representar a vontade de não ter precisado dizer uma palavra, foi entendido como uma das muitas formas de linguagem!

Mas isso faz de nós bons intérpretes dos símbolos da linguística ou maus entendedores?
Será o hábito de traduzir os sentimentos, ânsias, impulsos e vontades em conjuntos de letras sinal de que não os entendemos bem ou de que perdemos a capacidade de nos expressar sem palavras?

Sinceramente, caro companheiro de devaneio, eu ainda não decidi que rumo devo tomar para terminar essa discussão. Encontro-me com os dedos travados, incapazes de prosseguir e expressar uma opinião da qual não tenho absoluta certeza. Ou melhor dizendo, da qual não tenho certeza alguma.

Peço desculpas por não poder responder as minhas próprias perguntas, mas que mal lhe pergunte, já teve a sensação de que saudade, por exemplo, é uma palavra pequena demais pra demonstrar todo o sentimento?

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Palavras novas melhorariam textos como esse.

 Percebi nesses últimos dias que sou bastante consumista. Felizmente, ou talvez nem tanto, pro bem do mundo, ou talvez nem tanto... enfim... Seja como for, meu consumismo se resume as palavras. Notei-me vasculhando toda e qualquer coisa que me sirva de fonte a procura daquelas, ainda muitas, desconhecidas por mim.

 Essa minha necessidade de novos significados, certamente está relacionada a uma outra, a qual já mencionei outras vezes: a necessidade que eu tenho de me expressar. Tento fazer o melhor que posso unindo todas as formas de expressão que eu encontro, mas ainda sim não me sinto satisfeita. Sobra sempre muita falta. Falta de significado, de significância.

 Nosso íntimo é complexo demais para que a gente possa se dar ao luxo de querer que algum outro ser desvende nossos mistérios.

 Por que não traduzir juntando letrinha por letrinha?
Para que "coisar" a vida tentando vivê-la como um conto de fadas?
(Ou seria mais certo chamar de faz-de-conta?)

 É claro que toda forma de comunicação é valida. O corpo, as mãos, os olhos... Eles também tem seu papel. O problema é que tem gente sobrecarregando esses meios e esquecendo de nossa grande porta de saída de informações. Exit. Xô. Deixem que as palavras saiam pela boca e vejam o quão mais leve a comunicação será.

 Todo bom conhecedor de palavras conhece o prazer de analisar cada conjunto de letras ao passo que são ditas. Todo bicho-do-mato seria surpreendido se fosse mostrado o quanto é dito mesmo quando é dito tão pouco. E é tão importante!

 Eu preciso dizer muito. Sempre. Eu preciso de novos conjuntos de significados. Eu sou uma eterna amante das palavras e agradeceria se cada pessoa me apresentasse uma nova parceria.

sábado, 14 de abril de 2012

Entender é uma questão de sentir.

O que eu sinto é puro.
Eu não o quero como minha posse, apesar de adorar que ele queira ser. O meu querer é de não possuir. É o simples querer de estar à mercê.
Eu poderia ser qualquer coisa que ele quisesse de mim só pra vê-lo feliz.
Eu não posso negar nada a quem merece tudo, posso?
Ninguém nega o céu aos anjos e pássaros.
E eu não posso amarrar suas asas. Nem quero. Eu quero a feroz liberdade de sua natureza me fazendo feliz. Como fez até hoje. Como ainda fará.
Soa estranho eu dizer que não o quero. Eu o quero talvez não mais que tudo, mas mais que muito.
Mas quando digo que o quero livre, falo do seu espírito. É seu espírito que nunca deve ser aprisionado. Quem olhar pros seus olhos quando ele sorri solto, entenderá.
Ou talvez não. Talvez precise de certo tato pra sentir aquela luz. Mas eu vejo. E brilha. Reluz.
Eu amo aquela criatura de tantas formas diferentes que talvez seja incondicional. Porque, bem, eu amo aquela existência. Eu admiro. É belo e simples.
Porque, também, aquela luz me iluminou. De dentro pra fora e extravasou pelos olhos.
Porque eu tenho muitos ‘porquês’ pra isso.
E talvez, eu tenha ‘talvez’ o bastante pra responder os ‘porquês’ incertos. Mas não consigo dizer exatamente o que se passa porque o que eu sinto é puro.
Puro sentimento. Pura alma.
E completo.


(Escrito em 06/01/2012)

sábado, 17 de março de 2012

Já pensou no que você quer levar pro seu futuro?

 Não? Eu andei pensando. E tem uma série de coisas de que eu não abro mão.

 Eu me entrego constantemente aos meus pensamentos e tento extrair o máximo de informação de mim. É assim que exploro o vasto território do meu ser, me conheço e reconheço. Reconheço que preciso disso. Ainda mais agora, que estou numa fase boba de transição que me mete certo medo. Medo de que eu veja que não me conheço tanto assim. É complicada essa coisa da aborrecência de ter que saber - ou aprender na marra - a escolher. Nossas grandes escolhas começam agora e a minha questão, no momento, é o que eu quero levar comigo pra sempre. Escutei por aí que o que a gente leva da vida é o que faz o que somos, e eu quero levar o que de melhor chegou pra mim.

 Já falei uma vez de uma caixinha onde eu guardo presentes. Pensando agora, percebo que muitos deles eu quero levar não só em pensamento, mas também fisicamente. Esses presentes só têm o peso de um sorriso: Sempre terei lugar pra eles. É o caso de um anel amarelo-notinha-fiscal, de uma flor de papel dada a mim por um estranho e de uma lembrança esboçada num pedaço de papel. Sinto-me menos humana, mais divina por dar valor a esses significados. Quero dizer, não eu, mas a parte sentimental da coisa, sabe? Isso é nobre. Escolho isso.

 Escolho também essa coisa de ser um pouco minha mãe, de aprender que "os brutos também amam" com meu pai e que mesmo aquelas pessoas, irmã, que não sabem como demonstrar, têm um amor imenso por dentro. E que existem pessoas e sonhos pelos quais vale a pena transpor qualquer barreira e que é importante que se mostre e faça e demonstre todas as vezes que tiver vontade, porque agora eu sei que a oportunidade passa.

 Sei? Sei o que? Nunca me sinto segura ao fazer essa afirmação.

 Por isso, eu escolho deixar tudo aquilo que é sensação. É tão primordial, sujeita a tantas mudanças...  Na bagagem só quero tudo o que, quando eu lembrar, me faça sorrir ou chorar. O sorriso e a lágrima provocados pela lembrança são indicações de que a eternidade chegou àquele instante. Eu quero um futuro sólido, de certezas. E o que é mais seguro do que aquilo gravado no interior de nós mesmos?

segunda-feira, 5 de março de 2012

Sede da liberdade.

Eu descobri que tenho necessidade de liberdade. Mas não é aquela liberdade que te é concedida por alguém, ou a prevista, a que todos têm, ou aquela que se pode invejar. Necessito daquela liberdade que é cedida por nós e para nós mesmos.

Sabe aquela coisa de que só temos a cara de quem somos quando estamos sozinhos? Eu quase concordo. Quase. Pra mim, entra aí a questão de que quando estamos sozinhos, ficamos sem vergonha, despudorados, livres de qualquer amarra que possa nos prender aos nossos receios. Mas nossos receios também nos caracterizam.

Essa necessidade de estar livre de mim tem me perseguido, até mesmo, dentro do aconchego do meu quarto, que é até bastante meu. Por que, né?! Parei pra pensar nisso. Eu não cheguei a nenhuma conclusão imediatamente. Pelo contrário. Isso ficou me espetando por muito tempo sem eu saber de onde vinham aquelas espetadinhas. Mas aí eu comecei a lembrar de fragmentos de coisas passadas e, o que no início não fez muito sentido pra mim, por fim me mostrou a origem das espetadas.

A primeira coisa que me veio a cabeça foi minha mãe me dizendo pra eu tomar cuidado por estar só de lingerie, porque meu pai poderia ver. Lembrei também de ter visto um móvel antigo e dizer pra minha mãe que o queria e que ia pintar de amarelo... Lembro da expressão que ela fez com tom de reprovação. Lembro das roupas que ela me disse serem estranhas e dos quadros que eu não queria pendurar e tive que fazer.

Essas pequenas liberdades que foram tiradas de mim eram as liberdades que eu queria me conceder. E quero agora.

Papai e Mamãe que me perdoem: Não vejo a hora de criar minha sede da liberdade. No mundo real, é só um pequeno apartamento com uma banheira, cama desfeita, geladeira cheia de chocolates, um móvel colorido, uma mesa de café com marca de copo, livro na cabeceira e eu. Eu com muito mais possibilidade de "sim" do que "não".

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Ou não.

Eu acho que deveria escrever um livro. Nada de histórias. Poesias ou prosas muito menos. Não que não faça meu tipo de leitura. É exatamente o caso contrário: Gosto tanto e já vi tanto que não acho que haja muito mais para ser dito. De qualquer forma, torço para que discordem de mim e escrevam muito ainda, para que eu possa sustentar minha compulsão. Isso mesmo, compulsão. Não que eu não goste disso… É só que eu não saboreio os livros. Eu os disseco; Extraio tudo que posso o mais rápido possível pra poder começar outro e repetir o ritual.

Mas, o que eu estava falando mesmo? Ah, sim, que eu deveria escrever um livro. Um em que eu colocasse todas as minhas teorias e conclusões sobre as coisas do meu dia-a-dia. Eu sou virginiana, muito observadora e gosto de filosofia, o que sempre resulta em, bem, não posso dizer textos porque nunca ou quase nunca anoto, mas sim que resulta em reflexões estupidamente detalhadas. Então, mesmo com a pouca qualidade da minha escrita, eu teria bastante coisa pra encher linguiça. Seria algo parecido com um diário, o que eu sempre quis ter e nunca tive realmente, mas de um velho dramaturgo de quem foi tirado quase tudo e só lhe restou pensar, divagar, voltar ao pensamento e por fim, escrever.

Seria, portanto, algo bastante esquisito, pra falar o mínimo. Consegue imaginar uma adolescente no auge de sua aborrecência dando uma de analista e examinando cada cena, cada ato, cada sentimento mostrado, incluindo seus próprios? Parece loucura e, se eu não fosse eu mesma, já estaria preocupada, mas posso garantir que essa coisa de pensar-demais-sobre me traz benefícios algumas vezes. Por exemplo, eu conheço as pessoas que estão por perto mais do que elas imaginam e também costumo ter bastante confiança nos meus julgamentos, opiniões e achismos. Vai ver por isso meus pais me acham madura o bastante pra tomar minhas decisões e eu tenha tanta liberdade… Aliás, é engraçado que eu tenha tanta liberdade e não me “aproveite” enquanto tem gente se rebelando pela falta dela e, exatamente por isso, acabe ainda mais distante.

Mas vamos voltar ao fato de eu ter muitas reflexões ao invés de falar de algumas delas.

Como toda garota, boa ou não, tanto faz, também tenho meus pensamentos de faz-de-conta. E tá aí uma coisa que acrescentaria certa interessância ao meu diário… É… Quis dizer livro… Ao meu livro: Um pouco do meu conto de fadas contemporâneo. Nele, meu faz-de-conta entraria interrompendo os assuntos chatos e divagações entediantes, que é o que acontece realmente. O mais legal é que cada um interpretaria de um jeito e a minha verdade permaneceria visível só pra mim. Só não falo do cara porque eu prefiro essa parte bastante real.

Se eu acabasse por escrever um livro de verdade, eu pediria aos meus amigos para não lerem nem sequer uma página. Algumas pessoas acabariam percebendo que nem sempre eu dou alguma atenção ao que elas estão falando, que eu só percebo a boca se mexendo e fico ali por pura consideração até que elas terminem e eu diga algo que feche o assunto.

Mas eu jamais escreveria um livro mostrando como eu penso, o que eu penso, como me perco no meio das minhas próprias reflexões e, se Deus existe, Ele sabe e não faz mal falar, como consigo me perder e entrar num faz-de-conta até no meio de uma oração. Eu já faço da minha vida um livro aberto. Com algumas tarjas de censura, é verdade. Mas todo mundo precisa de um aconchego, e meu paraíso perdido é dentro de mim. Eu deveria escrever esse livro e deixar fechado. Finalmente eu teria meu querido diário.