quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Fé é uma questão do ser.

Eu tenho fé. Fé naquilo que não sei e no que ainda vou entender.
Tudo que é tangível, capaz de ser racionalizado ou grande o suficiente para ser palpável é pequeno demais.
Eu creio na força e poder do desconhecido: No "sobre-humano".

Talvez eu seja só insegura demais pra acreditar que somos obras de nós mesmos, artistas com recursos tão limitados;
ou seria eu demasiadamente vaidosa por achar que somos bons o suficiente pra ter algo maior ao nosso redor, olhando por nós?

É quase confortável pensar que esse delírio que é a vida é uma forma do Homem ser castigado por negar sua divindade e maltratar seu templo.
Como é que a gente pode se considerar tão pequeno?

Somos filhos de Gaia. Somos filhos de Deus. Mas, também, não somos filhos de nós mesmos?
Não nos criamos, modelamos, reinventamos?
Não somos nós quem damos início as coisas, que prosseguimos com elas, que determinamos seu fim?

Se somos donos de nós mesmos, se dentro de nós reside um universo único e particular, não somos também co-criadores de nossas vidas?
Deus não está morto. Deus está vivo em mim.

Eu tenho fé. Fé em algo maior que Eu.
Eu creio na força da minha própria divindade, naquilo que pode me ensinar o que há de mais profundo em mim.


sábado, 8 de agosto de 2015

Àqueles que me desapontaram.

Meu bem, não foi você

Eu sei, cliché
Se vim me desapontar 
Fui eu
Não levei o tempo preciso
Para pensar, analisar

Antes imaginei

Era sua imagem, não foi você
Projetei
Aquilo que eu acreditava merecer
Em alguém

Mas, meu bem, não foi você
Se o que eu quis não foi o que me deu
Fui eu
Que quis o que não podia me dar
Ou fazer

Antes esperei

De alguém, não você
Ansiei
O que ninguém me prometeu
Fui além

Não você, meu bem, mas quem?

Se me frustei porque expectativa e realidade não correspondem
Fui eu
Que não pude apreciar o pássaro na mão
Irredutível
Preferi nós dois voando

Perdão!

sábado, 2 de maio de 2015

"Ficar ou partir?"

  Todo dia é o mesmo já se vão muitos anos. Todo dia vou de encontro ao meu destino. Eu tenho tentado novos caminhos, procurado por atalhos ou por alguma coisa (que não sei exatamente o quê) que torne a travessia mais agradável, mas o fato permanece: todo dia eu chego ao meu destino atualmente localizado no número noventa e oito da Rua México.

  Ainda que eu possa pegar dois ônibus pelo preço de um e descer bem na porta do meu destino, costumo pegar apenas um, mas que me deixa uns vinte minutos livre. Assim, me aventuro cada dia por uma rua, por uma nova esquina com novos outdoors chamando minha atenção, descobrindo novas fachadas tombadas pelo patrimônio histórico sem nenhuma construção por trás ou caminhando, corajosa, por cima de bueiros desconhecidos sem saber se ventam ou não. 

  Perdi as contas de quantas vezes minha saia levantou, frise-se, desagradavelmente, numa cena digna da Rainha Monroe por um bueiro que não devia estar ali ou me decepcionei por não existir nada por trás de uma fachada que, pela arquitetura encantadora, só poderia ser da Belle Époque. Há, no entanto, uma beleza que permeia toda descoberta e se traduz na satisfação das perguntas respondidas. Se me perguntarem, por exemplo, se conheço um bom café, recomendo o Armazém do Café, na Rua do Ouvidor. 

  Anseio conhecer cada esquina que esteja numa rota possível em direção ao meu destino. Eu adoro passar pela Rua da Candelária, bater perna pela Rua Primeiro de Março, virar na Rua Sete de Setembro, pegar a Avenida Rio Branco e só então chegar à Rua México. Isso em um dia bonito. Já aconteceu de eu tentar fazer esse caminho em um dia chuvoso que eu estava curiosamente mal-humorada pra ver se passava. Momentaneamente, só fiz piorar meu humor. "E se?" eu não tivesse tentado melhorar meu humor? Provavelmente teria chegado seca ao meu destino, mas não saberia como é bonita a Rua da Candelária com pingos e poças brilhantes de chuva e sol.

  Ainda não percorri todos os caminhos e pouco conheço dos que já percorri. Quero percorrer e conhecê-los todos em todas suas variantes: com sol ou chuva, dia ou noite, outono, primavera, inverno ou verão. Pretendo encontrar um caminho que seja capaz de melhorar meu humor em qualquer estação do ano, hora do dia ou tempo, me inspirando beleza e o conforto do conhecido. 

  Algumas vezes, escutando o Vento me dizer que o esforço pra lembrar é a vontade de esquecer, me pergunto se meu ânimo por esses vinte minutos que passo tentando achar o melhor caminho não seria, de alguma forma, um indício de que não quero chegar. Então me percebo míope sem querer enxergar que o meu destino, escolhido por mim, é esperado e bem vindo e o que eu faço é aproveitar o caminho sabendo que é inevitável a chegada. E partida.

  Sei que há de chegar o dia em que meu destino mudará de endereço como já fez outras tantas vezes antes. Sei que acontecerá quando meu caminho me passar o conforto do conhecido. Não sei aonde irá meu destino, mas sei que terei de segui-lo. O caminho que farei é um mistério.

  Cada vez que acredito conhecer o caminho a se fazer para chegar ao meu destino, ele muda de lugar. Se eu alimento uma certeza, ele me cria uma dúvida. Parece não querer que eu crie raízes em nenhum lugar. Falando assim, parece muito egoísta o meu destino, mas é a mim que importa mais o caminho que faço para chegar até ele do que o fato de chegar. Meu destino é solucionar as questões que eu mesma me proponho. Não tenho lugar. A cada questão resolvida, vou em busca de resolver a próxima. Cada vez que chego, parto. E é para isso que serve meu destino: para que eu não deixe de caminhar.

  Todo dia é o mesmo já se vão muitos anos. Todo dia vou de encontro ao meu destino.

  Mas se você me perguntar agora, eu adoraria me fazer uma pergunta sem resposta e, cansada de caminhar, ficar.




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terça-feira, 25 de junho de 2013

Sonhos que eu queria viver.

O vento sopra
O tempo esfria
De noite acordo pra me cobrir

Uso lençol
Por cima edredom
Em casulo me enrolo
E aninho

Tento dormir 

Com pé ainda gelado
Dedos gelados
Rosto amassado
Conforto não tem

Tanto aperto os olhos
Quase olho pra dentro
Volto ao sonho
Espero o embalar do sono

Não vem

Não olho o relógio pra não vê-lo rodar
Num constante parar
E então seguir

Acostumo com a pouca claridade
Vejo formas disformes de passagem
Em cada minuto, incabível eternidade
Enlouqueço por só meus pensamentos ouvir

Faço-me companhia 
Fantasiando acordada
Histórias pr'eu dormir
Coisas que nem vivi

O dia raia
O sol já brilha
De manhã me descubro a mim.

terça-feira, 4 de junho de 2013

(Mesmo que no futuro se repita o passado) O agora é um presente. O novo sempre vem.

  2013 é o ano da mudança.


  Novidades vieram se anunciando calma e lentamente desde meados do ano que passou, mas foi uma surpresa para mim quando, de repente, notei muitas coisas diferentes a minha volta. Acho que isso é como envelhecer: a gente sabe que um dia a juventude vai embora e se olha todo dia no espelho sem notar nada diferente, até que em uma manhã que tinha tudo para ser como qualquer outra nos assustamos ao encontrar a primeira ruga ou fio de cabelo branco. 

 Não tive festa de 15 anos pra me apresentar para a sociedade como mulher. Não quis. Não vi propósito. Dia 16 de setembro de 2010 eu era a mesma menina que fui dia anterior. Eu tive festa de formatura. Formatura. Formação. Eu estava formada e isso sim tem algum significado.


 Não, meu corpo ainda não foi tatuado pelo tempo como lembrete de que tudo passa, inclusive a Vida. Eu estou apenas começando a aprendendo agora a caminhar com meus próprios pés. 
Dezessete anos de vida e apesar de ter feito tudo o que fiz, ainda sou a mesma que vivia como meus pais.

 Mas o que significa isso de começar a caminhar com os próprios pés? Significa que é hora de colocar em prática tudo que aprendi até hoje e continuar com o aprendizado. Significa se desfazer das ilusões e adaptar a perspectiva romântica que acompanha a inocência à realista. Saber lidar com a realidade, com a rejeição e o não. Mas acima de tudo, significa ter paciência.

 Crescer é entender quem nós somos, o tempo, os limites e o outro.

 Em 2013 eu cresci como pessoa.

* * *

                                                         REF.: Maria Rita - Como Nossos Pais

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Eu não sei você, mas eu adoraria saber o gosto de umas palavras.


  Não me recordo da primeira vez que escutei falar sobre essa coisa de sinestesia. Tenho pra mim que foi numa das primeiras vezes em que joguei The Sims, quando resolvi reparar nas frases que apareciam na tela justificando a demora pra carregar o jogo. Lembro bem de uma que dizia que estavam "eliminando mágicos de araque" e, pelo tempo que isso demorava, eu imaginava que eram mágicos de araque muito bons, mas... porém... contudo... todavia... devo embaraçosamente dizer que a culpa era toda minha por tentar carregar esse jogo com todas suas oito expansões em um Windows 95.

  Pois bem. Sinestesia. Essa palavra me incomodou durante muito, muito tempo. Nunca gostei de coisas que eu não conseguia entender, então sempre que eu via essa palavra eu pensava em procurar seu significado, mas com todo aquele jogo de sedução que me mantinha horas a fio em frente ao computador, posso dizer que foi uma batalha épica com a minha memória até que eu conseguisse lembrar que, caramba!, já era hora de eu descobrir o que aquilo significava.

  O que eu achei dizia respeito a uma das figuras de linguagem que misturava percepções de sentidos diferentes, como quando Casimiro de Abreu disse que as falas sentidas que os olhos falavam, ele não queria, não podia e não devia contar. Ainda me impressiono com o poder que essa figura tem de dar vida aos textos. Eu gosto de pensar que é porque eu posso sentir a "frase sinesteta".

  Foi bastante tempo depois que eu descobri que sinestesia era também uma condição neurológica que permitia que as pessoas sentissem de verdade um cheiro adocicado ou que escutassem uma música azul. É uma condição tão ímpar que é difícil até assimilar a ideia. Acho que a palavra que eu procuro é transcendental.

  Imagine viver em um mundo em que você pudesse ver as cores das notas musicais, sentir o gosto dos aromas, a temperatura dos sabores ou até os sons dos cheiros. Imagine todas as suas vivencias cotidianas acrescidas de mais informação. Imagine escutar um som quando o semáforo mudar de vermelho pra verde, sentir o gosto do cheirinho de frango assado, a emoção que vem junto com o chocolate, descobrir a temperatura da pimenta ou observar a explosão de cores de uma música de bossa. Eu acho que seria uma aventura fazer qualquer coisa nova. Uma viagem. Um beijo. Ligar a TV. Amor.

  Eu acho que não perderíamos uma só lembrança.

  Eu acho que lembraria bem da primeira vez que escutei falar sobre essa coisa de sinestesia se eu tivesse algum quê de sinesteta. Tenho certeza que ela seria, ao menos, alguma coisa além de uma palavra. Não gosto de lembrar fatos com clareza e não das minhas percepções sensoriais. Não gosto de coisas que não consigo entender e não entendo nada de sensações e sentidos. Mas de uma coisa eu sei:

  Eu me entenderia melhor se eu conseguisse sentir o exato gosto dos "sim" e dos "não".

terça-feira, 26 de março de 2013

Quando o ócio não é produtivo, é esclarecedor.

  Já é noite, mas o dia foi longo. O sol, que sempre nasce na minha janela e ilumina todo meu quarto, acordou-me antes do despertar do relógio. Estava claro demais para voltar a dormir e cedo demais pra fazer qualquer outra coisa. Continuei deitada esperando que meu corpo e mente reagissem a luz do dia, na esperança de que algum deles me dissesse "ei, preguiçosa, hora de levantar!", como fazia minha mãe quando me acordava nos dias de escola. Nenhum dos dois me deixou saber se já estava na hora ou não e, sendo bastante sincera, perdi a noção de tempo porque minha cabeça estava vazia. Cá entre nós, às vezes uso a quantidade de coisas idiotas que passam pela minha cabeça como marcador de tempo.


  Num estado de completa inércia mental e corporal, resolvi olhar a hora que marcava o relógio. Eram sete horas e dezoito minutos. Assim, escritos assim mesmo pra vocês perceberem o quanto esse tempo passou arrastado. Depois de tanto me enroscar e aconchegar nos lençóis esperando o tempo passar, ainda eram sete horas e dezoito minutos.

  Levantei da cama levando as cobertas comigo pra usá-las como mantas e fui tomar café da manhã. Pra combinar com o ócio do momento, comi pão com pouca-manteiga e tomei uma xícara de café-com-leite-com-uma-colher-de-açúcar bem quentinho. Sempre fico sozinha em casa pela manhã e prefiro ficar no meu quarto porque quando escuto algum barulho, é mais fácil tomar conta de uma porta do que de três: da sala, da cozinha e da área de serviço. É sempre uma "aventura" ficar sozinha em casa - entre muitas aspas, claro - e tem algo de muito libertador nisso também. Eu gosto.

  Dei um tempo pro café da manhã assentar no estômago e fui fazer ioga, uma "reverência ao sol" pra retribuir o bom dia que ele veio me desejar. Foi horrível! Meu corpo doía inteiro porque na última festa que eu fui até tombo levei, mas no final das contas enfrentar isso valeu a pena, já que agora consigo sentar numa cadeira sem dizer "aaaaai!". Fui tomar banho porque não gosto de sair de casa com o cabelo molhado e gosto que ele seque ao natural. O relógio despertou logo que entrei no banho, mas ignorei e deixei que tocasse. Demorei quase duas horas no chuveiro. Ainda está no meu celular o aviso de alarme perdido. A partir daí o tempo correu bem rápido.

  Me vesti ao som de Ramones, The Who, Joan Jett, Red Hot e Arctic colocando cada peça de roupa no ritmo das músicas. Meu pé prendeu no short e fiquei pulando num pé só tentando manter o equilíbrio. Fiz meu almoço, comi, fiz limonada com gengibre, bebi, escovei os dentes e, quando percebi, já estava na hora de sair de casa.


  Meu curso começava às 14h, mas tinha que sair antes de casa pra imprimir meu currículo, tirar xerox da identidade, passar no cartório e ir no colégio onde eu fiz o fundamental pra pedir meu histórico escolar. Esqueci dessa última parte e peguei-me na rua cedo demais pra chegar no curso e "sem nada pra fazer". Lembrei de uma papelaria onde vende umas coisas muito legais e fui pra lá esperar o tempo passar. A vendedora deve ter achado muito estranho eu ficar lá tanto tempo olhando especificamente pra ... nada e, por isso, veio puxar assunto comigo. Eu estava com uma apostila e o currículo nas mãos.


  "Procurando emprego de que?" ela perguntou. Eu ri da forma como isso soou louco. Eu, 17 anos, míseros 1,59m de altura que tornam impossível ter uma conversa com alguém sem que essa pessoa olhe pra baixo, procurando emprego. "É pra estágio" eu disse rindo. Engatamos em uma conversa sobre minha vida que me fazia rir da naturalidade com que ela dava opinião sobre o que eu devia fazer sem ao menos saber meu nome. 13:52h: Hora de ir pro pré-vestibular.

  De 14h às 17:30h eu ri no curso com meu professor de uma-matéria-que-eu-já-dei contando de um trote que ele deu nos alunos vestindo outro professor de padre e fazendo todo mundo rezar por uma hora e meia. Mas entre uma risada e um exercício, a moça da papelaria e a nossa conversa me voltava a cabeça. Eu estava bastante incomodada com alguma coisa e não conseguia descobrir o que era até que um amigo me disparou: "Quando você chegar em casa já vai ter uma resposta do estágio!"


  Aí eu entendi. Agora eu entendi tudo.

  Demorar pra levantar. Ócio. Tomar café da manhã com calma. Festas. Banhos demorados. Almoçar em casa. Fazer hora olhando vitrines. "Panfletar" currículo. 


  Nem me formei e já estou desempregada.